Por Djalma
Andrade
Estamos
entrando em um campo que nos inscreve no paradoxo dos afetos pessoais e
coletivos. Nessa investigação da imagem dos afetos nas águas do Facebook, a canção
do rei Roberto Carlos, “Eu apenas quero” (1974), cai como luva nas mãos.
A
música em pauta é marcada pelas suas inúmeras repetições do “Eu quero” (24x). A
questão está no Eu precedido de desejo. “Eu quero apenas cantar o meu canto, eu só não
quero cantar sozinho”. No rol dessa necessidade narcísica, “eu quero ter um
milhão de amigos (admiradores), e bem mais forte poder cantar”.
Com
a chegada do Facebook, esse problema foi solucionado. O Eu prevalece, mas o
“quero” deu lugar ao “posso”. Realidade e desejo se confundem em um mesmo
espaço imaginário. Por meio de um acordo prévio, todos estão embebidos por um
mesmo canto: eu acredito no que você posta, e você acredita no que eu posto -
contrato psicológico.
Em
um de seus trabalhos de pesquisa sobre o assunto, apresentado no XXXV Congresso
Brasileiro de Ciências da Comunicação – Fortaleza, CE – 3 a 7/9/2012, Cláudio
Cardoso de Paiva, atiça, de modo significativo, as labaredas dessa discussão:
O filme A Rede Social (David Fincher, 2011)
consiste numa biografia de Mark Zuckerberg, inventor do Facebook, portanto
exibe o “Sujeito na tela” e cria a oportunidade para compreendermos o espírito
de Narciso na era da internet. A narrativa mostra os afetos característicos da
personalidade narcisista, recalque, auto-estima baixa, ressentimento, egoísmo,
crueldade, e parece ser uma história de superação: Zuckerberg driblou os
rivais, ficou bilionário e fez uma revolução na comunicação. O slogan do filme
é sintomático de um “estado psicossocial” típico da chamada “Geração Digital”,
ligada nos games, celulares e computadores: “Você não consegue fazer 500
milhões de amigos sem fazer alguns inimigos”. A narrativa é atravessada pelos
afetos egóicos, agressivos, extremamente competitivos e predatórios: a ira, a
inveja e o sentimento de vingança imperam nas falas e gestos, atualizando o
diagnóstico clínico das “desordens do caráter narcisista”.
Vale pontuar que o fenômeno do narcisismo foi
analisado nas obras de Freud e Jung, e estudos mais recentes, Eros e
Civilização (MARCUSE, 1955), A cultura do narcisismo (LASCH, 1983) e
Máquina de Narciso (SODRÉ, 1984); este último resgata o conceito para
decifrar os desequilíbrios na equação “indivíduo, televisão e poder no Brasil”.
Pelo outro lado da tela, na perspectiva do público, o fenômeno do narcisismo se
mostra num misto de idolatria e vontade de aparecer. A
figura simbólica de Narciso condensa uma eticidade reveladora dos estilos de
conduta do ser humano com relação a “si-próprio” e aos indivíduos à sua volta.
Como as outras mitologias antigas, Narciso traz consigo uma moral da estória:
alerta para o risco de morte causado pela destemperança e fragilidade do ser
diante do pathos arrebatador. E adverte, particularmente, com relação ao
exagero no fascínio pela própria imagem, sem deixar de aludir à “virtude
narcísica” que consistiria na arte de manter o equilíbrio entre a auto-estima,
o cuidado de si, o orgulho próprio, e as vaidades e egoísmos extremados.
Dentro de um esquema pensado, o
Facebook pergunta diretamente ao visitante: “No que você está pensando?”,
remetendo-nos à máxima filosófica de Descartes: “Penso, logo existo”. Convém
notar, o Facebook se dirige ao ego e refaz a pergunta milenar: “Quem é você?”.
Assimilando a contribuição estético-filosófica de Martino (2010), percebemos
que a matéria dos sites de conversação são as narrativas (falas escritas e
escritas oralizadas). Ali, os atores produzem uma escrita de si, forjando uma
identidade que criaram para si, na qual acreditam piamente. A perspicácia do
pesquisador consiste em reformular assim a pergunta do oráculo Facebook: “Quem
você pensa que é?”. A subversão é genial, pois resgata a crítica do ethos
autoritário brasileiro, como o faz Da Matta, na obra Carnavais, malandros e
heróis (1983), problematizando a caricata frase dos coronéis: “Você sabe
com quem está falando?”
Nas águas do Facebook, dificilmente vamos
saber com quem estamos falando. Igualmente, dificilmente saberemos separar
desejo de realidade, principalmente quando se trata de águas que refletem o
poder de se ter um milhão de amigos.
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